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Orientação familiar

Intervenção Centrada na família

Anna Maria A. Roslyng-Jensen

Já há décadas, audiologistas vêm atuando e tendo como objetos de estudo o diagnóstico e a intervenção precoces de crianças portadoras de deficiência auditiva.

Como profissionais desta área, mais e mais nos convencemos da eficácia de nossas práticas quando atingimos satisfatoriamente o principal objetivo de nosso trabalho: ajudar os membros das famílias a se tornarem  os principais  estimuladores da equipe de reabilitação.

Nas décadas de 70 e 80, os países desenvolvidos, que tinham  experiência acumulada em estimulação auditiva,  de linguagem e  fala envolvendo os  modelos intervencionistas,  já mostravam ser impossível atender uma criança, sem que o trabalho fosse realizado através dos pais.

No Colorado, EUA, nesta mesma época e, posteriormente,  em 1994, após  o início dos programas da TANU, ficou evidente que  o centro considerado ideal das propostas terapêuticas é o lar, por ser o mundo referencial de bebês na relação com suas mães, e por proporcionar a  exploração de fontes sonoras e/ou sons que se repetem na rotina de cada família.

Além disto, a  razão fundamental para a atenção dos profissionais estar voltada às famílias baseia-se no próprio desenvolvimento de um bebê desde o seu nascimento, já que este ocorre no núcleo familiar e na estreita relação entre mãe e bebê, em um universo íntimo e restrito buscando a construção de mundo interno, tanto psíquica como fisicamente.

A medida que os dias, semanas e meses vão passando, um bebê recém-nascido amplia gradativamente sua experiência de mundo que vai da proximidade de seu corpo, voz e contato físico  ao corpo,  sons e contato físico provenientes da mãe.

Tal ampliação pode ocorrer desde entre o  espaço físico de um quarto no lar até outras partes da casa. Ocorre ainda de um espaço psíquico mãe para outro, o  pai e muito lentamente para os irmãos e  avós.

Portanto, ousados somos  quando chamamos estas crianças de nosso pacientes. No período peri e pós-diagnóstico, nossos reais pacientes são os pais.

Geralmente, após a confirmação do diagnóstico,  os pais  julgam   não saber lidar com seus filhos, portadores de uma  lesão invisível e irreversível, porém importante, a deficiência auditiva. Entretanto, são eles e, em  especial a mãe nos primeiros meses e, depois o casal, quem conhece, descreve, avalia e entende as necessidades do bebê, atendendo-o e satisfazendo-o.

Estes pais querem e precisam  ver  reações do bebê aos sons. Estas reações são a vitamina para continuidade de uma atitude constante e natural de mãe e pai estimuladores.

Desta forma, independente do grau de perda auditiva que uma criança carregue consigo,  pela situação natural de proximidade física entre bebê e mãe (no colo, nas situações de alimentação, troca de fralda, banho e aconchego), a voz materna, poderosa, vem próxima ao ouvido da criancinha.

Assim, quando mostramos aos pais as expressões faciais e movimentação corporal do bebê ao ouvir  esta voz, eles passam a acreditar que, mesmo na presença da deficiência auditiva,  o bebê reage e tem muitas possibilidades de participar  e conhecer o mundo sonoro.

As brincadeiras entre mãe e filho(a),  que auxiliam na aquisição e desenvolvimento da linguagem e desenvolve a função auditiva, devem ser ricas e espontâneas nesta relação.

Nós, profissionais que  instrumentamos a família, cuidamos com requinte de uma audição residual amplificada, aumentando as possibilidades da criança em perceber, identificar, reconhecer e compreender o mundo sonoro.

Neste contexto, apenas quando o crescimento proporciona  o afastamento físico natural entre mãe e filho,  é possível que o profissional afirme ter a criança como seu paciente. A partir de então, há a formação de  vínculos, avaliação e propostas de situações terapêuticas pertinentes a cada etapa da linguagem receptiva e expressiva em que a criança se encontra.

Ainda assim o lar continua sendo o mundo familiar conhecido pela criança de onde partem as relações sonoras e sociais, a uma ampliação na micro-sociedade que rodeia uma criança.

Nosso papel, que não se restringe a uma sessão de atendimento, também  deve propiciar encontros e trocas de idéias com vários casais que conhecem na intimidade e vivenciam o papel de pais de crianças com barreiras de comunicação.

O envolvimento dos pais no processo de habilitação é crucial para um desenvolvimento bem sucedido de uma criança deficiente auditiva e sua inserção satisfatória na sociedade.

Os pais, que se deparam com o desconhecido, após a confirmação de uma lesão auditiva, merecem todas as explicações por parte dos profissionais  responsáveis pelas avaliações audiológicas, próteses auditivas e métodos de reabilitação.

O poder de decidir por um caminho é dos pais, assim como deles são seus filhos.

E cabe lembrar que o impacto de um diagnóstico na família, muda para sempre sentimentos, a rotina, os hábitos e o tempo despendido com uma criança em particular.

Com certeza, segundo os próprios pais, com as crianças muito se aprende.

A sensibilidade dos profissionais deve ser constante, em todo o processo, para assim envolver os pais, e respeitar a cultura, linguagem e valores de cada família, no conteúdo de uma proposta terapêutica.

Referências:

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ROSLYNG-JENSEN, A. M. A. O acompanhamento fonoaudiológico de crianças surdas e deficientes auditivos no contexto familiar. In: FONSECA, V. R. J. M. Surdez e deficiência auditiva:  uma trajetória da infância a vida adulta. São Paulo : Casa do Psicólogo, 2001.

ROSLYNG-JENSEN, A.M.A. e Fragoso, A.C.P.F. – Reabilitação da Perda Auditiva na Infância. In: Tratado de Otorinolaringologia, vol. 2, p. 232 – 242, Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, 2003.

WEBER, B. A.; DIEFENDORF. Triagem auditiva neonatal. In: MUSIEK, F. E.; RINTELMANN, W. F. Perspectivas atuais em avaliação auditiva. São Paulo : Ed. Manole, 2001. cap. 11.

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